quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Margens de Rondônia

Rio Preto - Candeias do Jamari
Do que falam as margens? O que revelam? Ou ocultam? Fala-se delas ou elas? Dos discursos historiográficos que tratamos pouco importa trocar as margens de lugar. Não se trata de inverter ou eleger centros e periferias da história. A questão estaria menos no local – espaço geográfico – mas, sim, no papel ocupado por algumas narrativas e seus cenários num determinado discurso historiográfico, que nacional, homogêneo e hegemônico.
Rondônia é a cristalizada por culturas que nasceram no berço dos seus rios, e aqui, somos agraciados pelos rios Madeira, Mamoré e Guaporé, e como uma tríade, uma Santíssima Trindade, proporcionaram no passado, o ingresso dos sertanistas, a sobrevivência dos nativos, e no presente a permanência de algumas comunidades caboclas e tradicionais.
Rio Pakaas em Guajará Mirim
E os rios têm seus senhores e também seus servos. Sociedades indígenas reinventam-se como no Mamoré e Pakaas. Podemos, assim, percorrer os desvãos das corredeiras do Madeira e da vida de índios que por ali ainda existem. Ritos e sons dos rios confundem e são confundidos com as experiências de indígenas e setores envolventes. O Guaporé ganha vida histórica. Como a Amazônia, ele também é inventado como região, espaço geoecológico. Dele expulsa-se a história. Mas a recuperamos nos relatos de conquistas. O silenciado e o enfatizado se invertem. Menos mediação da natureza e, sim, expectativas e percepções. E de carne e osso, sangue e coração. São povos como os quilombolas de Santa Fé e Santo Antônio das Pedras Negras no Guaporé refazendo o contato colonial, suas identidades e, portanto, a si mesmos. O Outro paulatinamente reinventa o Nós. E ambos mudam. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios.

Rio Madeira - Porto Velho
Ao tentar fazer alusão a grande aventura de navegar pelo vasto desconhecido da Amazônia, passado este, vivido pelos bandeirantes e sertanistas, encontramos, não apenas um grande desafio, mas no presente, uma enorme sintonia com a natureza envolta pelos seus rios de uma beleza que somente quem vive na Amazônia poderia entender. Por alguns rios que naveguei em meu caiaque, pude não apenas viver uma nobre aventura, mas pude sentir e imaginar as dificuldades enfrentadas no passado, pelos navegantes que desafiaram primeiro a grande floresta de Rondônia. Estes nos deixaram no presente, a Amazônia, inexplorada em quase sua totalidade, embora por aqui, a história nos diz, passaram os destemidos pioneiros. Estes enfrentaram, problemas bem maiores para fazer valer a presença do homem neste recanto do planeta.  Naveguei com minha modesta embarcação da aventura, pelo Rio Madeira, o majestoso e perigoso Madeira, e assim consegui mensurar de perto o quando devemos respeitar a força de suas águas, a força de suas lendas e a energia de seu curso. Senti o calor da emoção de navegar no encontro do Rio Beni e Mamoré entre Guajará-Mirim e Nova Mamoré, onde a fronteira não é apenas representada por um detalhe geográfico, mas, sim pela diversidade da cultura, história e natureza. Conheci também o encontro da águas do Pacaas e Mamoré. Rios distintos que não se misturam, mas são homogêneos no que tange a harmonia da Amazônia e seu enorme ecossistema.
Rio Beni e Mamoré - fronteira Bolívia e Rondônia
O que falar então do Rio Guaporé? Palco de batalhas entre portugueses e espanhóis no século XVIII, que disputavam no passado a posse do lugar, em virtude das riquezas da Amazônia Guaporeana, sendo estas: o ouro e as drogas do sertão. Hoje, a disputa é exercida pelos pássaros, animais selvagens, peixes e bôtos, onde a procura por um território por tais espécies, geram uma busca incessante pelo demarcar e defender,  palmo a palmo,  o seu espaço na floresta. Se no passado o Eldorado era sinônimo de ouro e prata para os colonizadores, para nós, que vivem em Rondônia, o verdadeiro eldorado é uma esmeralda, verde e polida. O nosso Eldorado é o verde da Amazônia, e essa; de maneira sustentável, devemos explorar e defender.   
Rio Madeira - Porto Velho.
Em muitos artigos e manuais – o que se passou chamar de Amazônia foi verdadeiramente expulso. Uma expulsão histórica, uma cada vez historiográfica. Inventada como região – unida e homogeneizada – a Amazônia foi transformada num mundo distante. Da história distante, mas próxima da natureza. Reintegrar estes mundos não é tão-somente um esforço bem intencionado ou politicamente correto de compreender o regional. Significa entender a construção de ima(r)gens naquilo que nomeamos Amazônia, experiências não foram miméticas ou variáveis passivas de mundos dela distantes, mas ligados pelo cultura e viver dos seus rios.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87

Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Atraquei no meu Porto Velho

Aleks Palitot no Rio Madeira
Diz a lenda, reza uma possível ou provável história, que na beira do Madeira, pelos braços de um velho lenhador, codinome Pimentel, surge um porto. Esse porto, do velho ou não, ponto militar ou porto militar, que no passado serviu para guerra, e para nós trouxe a paz. Nosso porto, porto seguro, porto de amor, porto velho, do velho fervor. Não sei se existiu, se existe prova cabal, daquele que sugere o nome de PORTO VELHO, o porto, que apesar de velho, se tornou para muitos, uma nova morada. 
Na beira do Madeira, e nas margens da ferrovia, surge cidade moderna, cidade tardia, cidade dos tempos áureos, que não duram, nunca vão, jamais serão para nós duradouros. A não ser, na lembrança, uma boa lembrança dos tempos de criança, de cidade limpa, lugar onde todos se conheciam, Porto Velho ainda cidade provinciana. Cidade das gírias, era legal quisó, granfino, a cidade era um pizeiro.
O Porto dos ciclos, explorado no tempo, de braços abertos, recebeu a todos que aqui vieram. Assim, de coração escancarado, o velho porto, vira nova morada, do mundo novo, de pessoas novas, que hão de construir suas vidas, histórias, vitórias no sol escaldante, da terra de povos nativos, caboclos e pioneiros.
Esta cidade amiga, que nunca talvez fora erguida, apenas em um tempo. Foi ao longo dos ciclos, economias formadas, das drogas dos sertões, da corrida do ouro, do sangrar da seringueira, da extração da borracha que pelos trilhos da Madeira Mamoré, que seguiam do centro da Floresta, passando pelo velho porto, e pelo rio para o centro mundo. 
O mundo esteve aqui, na ocupação, na exploração, na construção do sonhar, e eita sonho difícil, Eldorado tão procurado, a que todos tentavam achar.
Muitas vidas aqui ceifadas, muitas vidas injustiçadas, mas o porto, de muita gente, se torna o nosso símbolo, de vida nova, de uma nova história para todos os presentes. 
Da infância lembro bem, da vida entre os limites do Areal e da Baixa União. Brincar de pira, peão, rouba bandeira, peteca, pipa ou papagaio, na antiga Norte e Sul, hoje Rogério Weber. 
E o que fazer no final de semana naquele tempo? Têm o cine Lacerda, ou Cine Brasil, a piscina Clube Ferroviário. O que gostava mesmo, era brincar de betis na rua, correndo pra lá, corre pra cá, vamos se esconder? Ficava melhor quando faltava à luz. Era uma gritaria tremenda, na cidade pequena onde tudo se via e ouvia. E quando a luz voltava? Uma outra gritaria. Tempos ruins sem a luz? Que nada. O céu era visível, as estrelas nítidas, o sonho possível e a vida mais simples e animada. 
Porto Velho 100 anos, muita história? Claro. Mas, cada um de nós têm a sua própria história. A parte preferida, o seu olhar sobre nós mesmos. O que lembrar? Do Porto Velho Hotel e sua varanda com a presença dos poetas? Ou da Praça das Caixas d’água? Difícil esquecer da saltenha do Jota Lima. 
Cidade antiga, que infelizmente não vive e nem preserva seu passado. Parece ter vergonha da sua história e identidade. Cidade machucada, esburacada, sem orgulho. Mas, ainda, é um porto, porto seguro, o porto da vida de todos, porto de simples esperança. Esperança de uma cidade mais limpa, limpa de tudo. Limpa da sujeira, limpa da corrupção e do abandono.
Podemos começar do zero depois de 100 anos, e tentar acertar o que erramos.  Enaltecer e cuidar do que nós nos orgulhamos.
Minha velha infância, do passado permanente no presente. Dos tempos de fugir de casa para roubar manga, de correr tranqüilo pela rua, de seguir sempre, pelos cantos da cidade sem nunca se perder, a não ser nas brincadeiras de rua. Saudades de não estar perdido e se sentir estranho, no canto que se escolheu para viver.
Nasci aqui, e tenho orgulho do meu DNA. Porto Velho te amo muito. Mas parece que aqui, a maioria são os que não te amam mais.

Aleks Palitot
Professor e Historiador

    

domingo, 13 de outubro de 2013

Ruínas da História, fortim de Bragança

O capitão general, Antônio Rolim de Moura, foi o primeiro Governador da capitania do Mato Grosso, deixando a planejada e recém fundada Vila Bela da Santíssima Trindade, o aguerrido Capitão General, desceu o Rio Guaporé e desalojou a missão de Santa Rosa, formada pelos jesuítas espanhóis, que trabalhavam a serviço da Coroa Espanhola.
Forte Nossa Senhora da Conceição no Rio Guaporé
Antônio Rolim de Moura, com seus soldados, que eram sertanistas da região do Guaporé, transformado em 1760, a guarnição de Santa Rosa Velha em um fortim pentagonal, que recebeu o nome de Santa Nossa Senhora da Conceição, muito vulnerável e protegido apenas por frágil estaca.
Este fortim sofreu várias investidas dos espanhóis, o que obrigou Rolim de Moura a descer de Vila Bela e defendê-lo.
Ruínas do Forte de Bragança (Conceição)
No dia 17 de abril de 1762, os Espanhóis desembocaram no rio Guaporé, pelo Itomanas com uma forte expedição militar que contava com 1.200 homens, conduzidos em 40  canoas que pretendiam expulsar do sítio mal fortificado, a guarnição comandada pelo próprio Rolim de Moura que dispunha, de pouco mais de 200 combatentes às suas ordens.
Parte Frontal do Fortim, de frente para o Rio Guaporé

Depois de uma bem sucedida ação militar de Rolim de Moura e de Francisco Xavier Tejo, incrivelmente os espanhóis foram expulsos da região. O Forte Conceição passou por reformas posteriormente, com o objetivo de consolidar a presença portuguesa na região, por isso, foi renomeado com o nome de Forte de Bragança, em homenagem a família real portuguesa. Enfim, o forte foi ampliado, melhor estruturado e seu contingente militar ampliado. Mas, antes de um novo combate, o Forte é inundado por uma surpreendente cheia do Rio Guaporé, e é abandonado. 
Muralha do Fote
O que resta atualmente do fortim, que fica cerca de 4km do Forte Príncipe da Beira, são apenas algumas muralhas e alicerces, longe da estrutura imponente que ajudou os portugueses a delimitar seus territórios. Os mesmos portugueses saíram vitoriosos nas pelegas contra os espanhóis, mas, foram derrotados pela força da natureza, pela força das águas, pelo supremo poder da Amazônia.

Aleksander Palitot
Professor e Historiador   



sábado, 28 de setembro de 2013

Símbolo de Rondônia descoberto pelo Mito


Às margens do Guaporé, no hoje Estado de Rondônia, a noroeste do Brasil, ergueu-se as seculares muralhas do Real Forte Príncipe da Beira. Implantá-las em sítio ainda hoje de difícil acesso, representa um feito extraordinário e uma relíquia da engenharia militar portuguesa, engastada na Floresta Amazônica.
Com o objetivo precípuo de defender o imenso território colonial português(Brasil), sentiram os colonizadores portugueses a inevitável necessidade de edificar fortificações, em pontos estratégicos do imenso território colonizado. Fortaleza que foi abandonada em 1889 durante a Proclamação da República e redescoberta por Marechal Rondon em 1914.
Foram anos de trabalhos árduos. Estas muralhas testemunham hoje a têmpera dos seus construtores, refletem a vontade férrea, a determinação inabalável, que os animaram para enfrentar os desafios e as adversidades resultantes da enormidade das distâncias, da agressividade da floresta e dos animais selvagens, do desgaste físico provocado pelas doenças e das investidas do oponente externo.

Cessadas as ameaças externas contra as quais se ergueu o Forte Príncipe da Beira, esteve por longos anos desguarnecido, abandonado, a floresta chegou a apagá-lo do conhecimento e da memória nacional. Gerações de brasileiros ignoravam a sua existência, até que, em 1914, Cândido Rondon o reencontrasse. De 1930 para os nossos dias, O Exército brasileiro voltou a guarnecê-lo.
Os homens do século XVIII, ao construírem esse Forte, deram seu trabalho e , alguns, sua vida, visando conquistar um patrimônio não para si, mas para as gerações seguintes. Patrimônio que, preservado a cada geração e consolidado pelo Marechal Rondon e seus companheiros, se converterá em efetivo pólo de geração e riquezas para os brasileiros.
Rondon tinha na solas dos pés o mais longo caminho jamais percorrido; andarilho infatigável, das sendas do oeste, na patriótica faina de pacificar ao seu modo os índios, de resgatar ao convívio nacional as distantes comunidades pelos fios telegráficos e de abrir novos rumos para a integração das esquecidas lindes, defrontou-se Rondon com as destruídas muralhas do velho Forte.
No ano de 1934 foi iniciado junto ao Forte, a construção de novas instalações destinadas a um quartel que passou a servir como local onde fora sediado, durante vários anos, o 7° Pelotão de fronteira, ligado à 6° Companhia de Fronteira, que se encontrava instalada em Guajará-Mirim.
O Forte é uma parte daquele passado. Ele atesta a energia,a vontade de um povo que é a nossa raça. Da fibra dessa raça iria surgir no Guaporé o sincretismo cultural do caboclo, dos quilombolas, dos seringueiros, dos povos indígenas. É esse povo hoje, que defendem com suas tradições, a identidade Amazônica esquecida e abandonada nas fronteiras. Não é apenas a Fortaleza da Floresta que está abandonada, é o povo ribeirinho do Guaporé, que seguem com suas vidas com todas as dificuldades, sem ajuda dos gestores públicos, na região que é berço da nossa história e vida.

Aleks Palitot
Historiador 


domingo, 18 de agosto de 2013

História de Rondônia, uma aula show


O programa de televisão Trilhando a História completa cinco anos de atuação, na busca de resgatar parte da história, memória e cultura de Rondônia e da Amazônia. Nesses anos foram gravados mais de trezentos programas, e boa parte das matérias filmadas no Estado de Rondônia, que comprovadamente é uma unidade federativa, que têm muita história ainda a ser contada, e também muito potencial turístico pelas belezas naturais e sua cultura.
Pensando nisso, o Professor Aleks Palitot, com a experiência adquirida nas gravações do Trilhando a História e com a sua atuação por mais de 15 anos em sala de aula na disciplina de história de Rondônia, vai agora proporcionar um aulão específico para Concurso Público com tema de história regional. Uma oportunidade imperdível para um aprendizado sobre este tema em uma aula show que se realizará dia 24 de agosto do corrente mês.
O Aulão de História de Rondônia será realizado no Auditório de Centro de Formação Executiva da Faculdade Porto – FGV, que está situado na Rua Paulo Freire. O investimento é de 25 reais para uma aula que será iniciada às 14 horas e se encerra às 18h no sábado. Para mais informações sobre os temas do aulão, o local de realização e vagas disponíveis no número 3211-6032. O evento é específico para o público que está se preparando para concursos públicos do Tribunal de Contas de Rondônia, Tribunal Regional Eleitoral, Polícia Civil, Polícia Militar, Bombeiro e também para alunos que estão se preparando para vestibulares em Medicina em Rondônia.

Fonte: produção Trilhando a História


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Por que e para quê História?


São várias as evidências da atual avidez pelo conhecimento histórico. Em outras palavras, a História está na moda! Filmes, séries televisivas, revistas de ampla divulgação, obras de caráter biográfico e temático são algumas das expressões que atestam a receptividade que a produção de cunho histórico vem obtendo no universo sociocultural brasileiro. Em Rondônia não é diferente, temos grandes historiadores com formação acadêmica, grandes pesquisadores da memória de nosso Estado e da Amazônia, que lutam paulatinamente para fazer ciência, historiadores como: Antônio Claudio Rabelo, Dante Foncesa, Marco Teixeira, Marta Valéria, Lilian Moser, Yeda Borsacov, Professor Abnael, Walfredo Tadeu, Kleber Lima , e por que não falar dos saudosos Vitor Hugo, Amizael Gomes e Esron de Menezes. Me perdoem os que se dizem historiadores, mas não posso desconsiderar o esforço de quem hoje está nos bancos das universidades, em busca de conhecimento, resultando na conquista de um diploma. Diploma de bacharel em história. Não posso me eximir de defender o que é o correto, e valorizar o esforço do discentes e docentes de história. E é na academia que se discute a história por diferentes primas. 
Tal panorama parece indicar que, entre nós, a História atinge sua maioridade, suas pesquisas ganham consistência e adquirem respeitabilidade. Verdade é que tudo isso pode ser atribuído, em grande parte, ao fato de os historiadores, cada vez mais, ampliarem seus diálogos com as demais ciências.
Por isso, instigado pelo Trilhando a História, programa de televisão local que produzo, ponho-me a pensar sobre as responsabilidades daqueles que deixam seduzir pelos encantos de Clio, a musa dos historiadores, fazendo dessa disciplina sua opção profissional.
Afloram em mim leituras e ensinamentos, a começar pela recorrente profissão de fé legada por Marc Bloch nas anotações que, publicadas postumamente, resultaram na sua Apologia pela História ou ofício do Historiador . Belo título. Incontornável  Leitura.
De imediato, relembro o parágrafo inicial. Nele uma criança, se dirigindo ao pai historiador, indaga-lhe:”Diga-me, para que serve a História?”. Pergunta desconcertante que inquieta e atormenta os estudantes, estudiosos e diletantes da História. Capacitados ou não a respondê-la, importar registrar a permanência desse desafio ao longo de nossa trajetória profissional.
Com efeito, perceber e introjetar o sentido e as funções sociais da história, compromisso do profissional da área, é também dever de consciência, de cada um de nós, na condição de agentes históricos. Ou na condição de agentes da nossa história, pois nunca é demasiado salientar que esta só se justifica e se explica por que tem os homens vivos com sua razão de ser. Estudamos história para conhecer e transformar a vida. Nossas angústias e interrogações são a força-motriz que nos impulsiona a conhecer o passado e, daí, tentar identificar e analisar criticamente as condições de e para a compreensão do nosso presente.
O passado e os mortos se constituem no objeto de nossos estudos, mas é das indagações e das perplexidades do presente que a História vai sendo (re)escrita e compreendida. É a partir do contexto em que nos situamos e do qual somos partícipes que construímos a nossa História.
Cuidando em não resvalarmos para a prática do anacronismo, é no questionamento do passado que buscamos detectar e delinear nossas identidades. Essas, por seu turno, obviamente, só se delineiam por contrastação, por antinomia. Vale dizer: o estudo da história objetiva captar e exprimir, predominantemente, nossas diferenças e não nossas afinidades.
Assim, o conhecimento do passado, não sendo em si mesmo a História, antes de iluminar o futuro, deve proporcionar aos homens viverem melhor o seu presente. Propiciar-nos referências para constituição de uma almejada sociedade mais justa e solidária.
Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87

Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Margens de Rondônia

Em Rio Mamoré no Iata Guajará Mirim

Do que falam as margens? O que revelam? Ou ocultam? Fala-se delas ou elas? Dos discursos historiográficos que tratamos pouco importa trocar as margens de lugar. Não se trata de inverter ou eleger centros e periferias da história. A questão estaria menos no local – espaço geográfico – mas, sim, no papel ocupado por algumas narrativas e seus cenários num determinado discurso historiográfico, que nacional, homogêneo e hegemônico.
Rondônia é a cristalizada por culturas que nasceram no berço dos seus rios, e aqui, somos agraciados pelos rios Madeira, Mamoré e Guaporé, e como uma tríade, uma Santíssima Trindade, proporcionaram no passado, o ingresso dos sertanistas, a sobrevivência dos nativos, e no presente a permanência de algumas comunidades caboclas e tradicionais.
Rio Madeira em Porto Velho em frente a Estrada de Ferro
E os rios têm seus senhores e também seus servos. Sociedades indígenas reinventam-se como no Mamoré e Pakaas. Podemos, assim, percorrer os desvãos das corredeiras do Madeira e da vida de índios que por ali ainda existem. Ritos e sons dos rios confundem e são confundidos com as experiências de indígenas e setores envolventes. O Guaporé ganha vida histórica. Como a Amazônia, ele também é inventado como região, espaço geoecológico. Dele expulsa-se a história. Mas a recuperamos nos relatos de conquistas. O silenciado e o enfatizado se invertem. Menos mediação da natureza e, sim, expectativas e percepções. E de carne e osso, sangue e coração. São povos como os quilombolas de Santa Fé e Santo Antônio das Pedras Negras no Guaporé refazendo o contato colonial, suas identidades e, portanto, a si mesmos. O Outro paulatinamente reinventa o Nós. E ambos mudam. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios.
Rio Guaporé em Costa Marques Rondônia
Em muitos artigos e manuais – o que se passou chamar de Amazônia foi verdadeiramente expulso. Uma expulsão histórica, uma cada vez historiográfica. Inventada como região – unida e homogeneizada – a Amazônia foi transformada num mundo distante. Da história distante, mas próxima da natureza. Reintegrar estes mundos não é tão-somente um esforço bem intencionado ou politicamente correto de compreender o regional. Significa entender a construção de ima(r)gens naquilo que nomeamos Amazônia, experiências não foram miméticas ou variáveis passivas de mundos dela distantes, mas ligados

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vamos Acordar


Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é, em resumo, ter direitos civis. É também participar no destino da sociedade indo para as ruas protestar. Rondônia começa a acordar, assim como acordou todo o Brasil. Vá sim para as ruas, sem violência, mas com palavras de ordem, com cartazes e faixas, e demonstre seu patriotismo.
E o que é ser patriota? Patriota não é aquele que, em nome da força, violenta o direito e põe o sabre no peito da nação. Patriota não é aquele que, no entrechoque entre milhares de camponeses sem terra e o latifundiário espojado na vastidão de terras improdutivas, abraça o poderoso e condena o infortunado. Patriota não é aquele que, convocado a debelar uma greve de professores explorados percebendo os salários aviltantes, contra o Estado empanturrado de milhões, pagando altos valores a cargos comissionados, grita à polícia que o explorado é vândalo e desordeiro.
Nos jovens de ontem, as gerações que vão se sucedendo devem colher as suas lições de vida. Por essa senda, encontra-se o futuro, marcado, em certos momentos da história, por terremotos humanos que abalaram os destinos dos povos. Deles rebentaram vultos, alguns ensangüentadores de nações. Da Revolução Francesa, esta personalidade devastadora de velhas dinastias e do excrescente divino dos reis. Da Primavera Árabe, abriram-se crateras nos povos do mundo, dela promanou um novo reordenamento nos sistemas políticos do Oriente.
Por ironia do destino, quis a história, que ressurgisse o nosso patriotismo as vésperas de uma Copa do Mundo de Futebol, e no Brasil. Sabemos que sempre, em períodos deste evento mundial esportivo, o Brasil sempre exacerbou as cores da bandeira da nossa mãe pátria em nome tão somente do futebol. Hoje o mundo vê, e principalmente os políticos do Brasil, que não somos tão somente o país do carnaval e do futebol. Renascemos, e acordamos, para não mais aceitar a política do pão e circo. Não serão os estádios lotados, mas sim as ruas as verdadeiras arquibancadas de personagens de uma nova história. Protagonistas que escreverão uma página nova, de um novo capítulo, que será lembrado e eternizado nas aulas dentro das escolas. Vamos para as ruas protestar!

Aleks Palitot
Professor e Historiador

terça-feira, 4 de junho de 2013

Divino Espírito Santo, fé do homem da floresta

Foto de Rodrigo Erse
A Festa do Divino tem sua origem em Portugal e foi estabelecida pela rainha Dª Isabel, casada com o Rei D. Diniz, por volta das primeiras décadas do século XIV.  Na oportunidade a Rainha vivenciava no paço real uma briga familiar entre o Rei D. Diniz e seu filho. Por isso, ela teria feito uma promessa, caso a paz voltasse a reinar na corte e sua família, ela faria uma réplica da sua coroa e do cetro, os enviaria como cumprimento de tal promessa ao Divino as regiões pertencentes ao Reino de Portugal.
Foto de Rodrigo Erse
A Festa do Divino Espírito Santo, em suas diversas manifestações, é uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular. Sua origem remonta às celebrações realizadas em Portugal a partir do século 14, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes e distribuição de esmolas aos pobres. Essas celebrações aconteciam 50 dias após a páscoa comemorando o Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre os apóstolos de Cristo sob forma de línguas de fogo, segundo conta o Novo Testamento.
No passado o Imperador do Divino gozava de direitos próprios de um soberano, libertando presos comuns em certas localidades portuguesas e brasileiras. Para a organização da festividade havia a Folia do Divino, grupo de pessoas pedindo e recebendo auxílios de toda a espécie. A folia do Divino, ilustrada com a pomba simbólica. Essas Folias percorriam grandes regiões, gastando semanas ou meses inteiros.
Foto de Rodrigo Erse
Em Rondônia, a Festa do Divino tem expressividade no Vale do Guaporé, onde a população ribeirinha procura manter viva a tradição do festejo. O culto do Divino Espírito Santo foi introduzido no Guaporé, por volta de 1894, pelo senhor Manuel Fernandes Coelho, quando de sua mudança de Vila Bela do Mato Grosso para a localidade de Ilhas das Flores. Naquele ano, o senhor Manoel Fernandes fez vir, de Vila Bela da Santíssima Trindade, a Coroa de prata e juntamente com outros adeptos, realizou os festejos do Divino naquela localidade. Todos os anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquela localidade. Todos os anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquele local sendo, então, os festejos transferidos para Rolim de Moura.
Atualmente a festa vem se realizando em forma de rodízio, atingindo, a cada ano, as localidades de Pedras Negras, Limoeiro, Costa Marques, Pimenteiras, Rolim de Moura, Príncipe da Beira, Santa Fé e Guajará Mirim, além de localidades em territórios bolivianos com Buena Vista, Guayara Mirin e Versalhes. A escolha do local é feita durante o encerramento dos festejos, através de sorteio e recai quatro em quatro anos no mesmo local. O registro mais antigo sobre a realização dos festejos, data de 1936 e o Estatuto de criação da Irmandade do Divino Espírito Santo, no Guaporé, data de 1934. No entanto, antigos moradores e descendentes dos primeiros organizadores dos festejos, afirmam que havia Ata da festa datada do século 19, em folha avulsa e que foi extraviada durante o período de sua paralisação. Esse período ninguém soube precisar. Afirmam alguns que ocorreu após um desentendimento entre os membros da Irmandade, cujo Presidente Guardião da Coroa, na época, descontentando-se, entregou-a à Prelazia de Guajará-Mirim.
Foto de Rodrigo Erse
D. Francisco Xavier Rey, Bispo de Guajará-Mirim, foi o revitalizador da festa, por volta de 1934/36. Os festejos do Divino no Guaporé, têm seu início a partir do momento em que o Barco do Divino chega à localidade promotora da Festa no ano anterior e o encarregado da Coroa recebe o Imperador do Divino da localidade, a Arca contendo a Coroa, a Bandeira, as toalhas do altar e os livros de Ata. Isso ocorre após a quaresma, mais ou menos no período da Páscoa. Tradicionalmente, a saída do barco dava-se no sábado de aleluia. Hoje devido ás inúmeras dificuldades que os peregrinos enfrentam, não há rigidez quanto à data de saída.
Após o encarregado da Coroa receber a Arca, o Barco do Divino inicia sua peregrinação ao longo do rio Guaporé e Mamoré, por quarenta dias até o final da Festa, colhendo óbolos entre ribeirinhos. O final da festa dá-se no dia de Pentecostes. Anteriormente, a peregrinação era feita em um barco movido a remos. Hoje, os peregrinos utilizam um pequeno motor emprestado de algum membro da Irmandade, para movimentar a embarcação até a localidade, quando, então, o motor é desligado e os remeiros iniciam remadas cadenciadas impulsionando o barco até o porto.
 
Foto de Rodrigo Erse
Ao aproximar-se de cada povoado, o Barco do Divino anuncia a sua chegada através de três salvas de ronqueira (artefato confeccionado de madeira com um cano de ferro por onde é introduzido a pólvora), três buzinadas em chifres de bois, e, mais próximos, os remeiros entoam cânticos de chegada e fazem a “meia-lua”, em frente ao porto, que consiste em três voltas circulares com o barco, antes de aportar. As remadas são cadenciadas e os remeiros elevam um pouco de água para o alto entre uma remada e outra. O caixeiro, inicia o toque com o tarol, um tipo de tambor pequeno.
Com a chegada do barco do Divino, acorre grande número de pessoas que extravasam sua fé, agradecendo as graças recebidas e pegando suas promessas. Uns, se postam de joelhos percorrendo, dessa maneira, a distância que separa o porto do local de “morada” da Coroa, outros se introduzem no rio, com água até a altura dos ombros, segurando velas acesas, rezando ou chorando. 
Foto de Rodrigo Erse
O Divino é saudado com foguetes, alegria, grande satisfação e demonstração de fé. Quando o barco aporta, o Encarregado da Coroa sai do barco acompanhado dos “foliões”, do “Mestre dos Foliões” que entoam cânticos acompanhados de um violão, do Encarregado da Bandeira e os demais tripulantes. São recebidos pelo Imperador ou Imperatriz do local. A Imperatriz recebe o Cetro de Prata, e o Imperador a Coroa, das mãos do Encarregado da Coroa. A partir de então, os fiéis ajoelham-se e beijam a Bandeira, o Cetro e têm a Coroa posta em suas cabeças por breves instantes. É a benção do Divino, que todos recebem contritamente. As esmolas são, então colocadas na bandeja de prata que suporta a Coroa.
O cortejo dirige-se, após, para a igreja da localidade por breve período, seguindo depois para o local onde se dará a alvorada do Divino ou “Velório” (acontece durante todos os dias em que a Coroa ficar na povoação, variando entre dois a quatro dias). Esse costume é herança dos portugueses e ainda é conservado em seus aspectos tradicionais. Ao cair da noite, a Bandeira e a Coroa são recolhidas à casa onde o Santo está morando, e onde são rezadas as novenas e entoados cânticos. O Santo não pode ficar sozinho durante a noite, é velado pelos fiéis e representantes da tripulação do barco.
Durante o dia, a Coroa e a Bandeira são levadas para a visitação às casas, coletando óbolos dos moradores. Em cada casa antes de entrar, os foliões entoam o cântico de chegada. Além da esmola, o dono oferece comidas e bebidas a todos no cortejo.
Foto de Rodrigo Erse
       A Coroa só se retira da casa quando o dono autoriza. A dona da casa acompanha a Coroa até a casa vizinha, levando o Cetro, e a entrega à nova anfitriã da Coroa. Se a dona da casa não for casada no católico, não poderá levar o Cetro, que nessas circunstâncias, será entregue a outra pessoa presente em sinal de grande apreço à pessoa escolhida. É considerado pelos populares, grande honraria receber a Coroa do Divino e carregar o Cetro da Imperatriz.
Durante os festejos são oferecidas as mais variadas espécies de esmolas, doações em dinheiro como também doações de bois, patos e carneiros. Os animais são abatidos para servirem de alimentação à tripulação do barco, e no final da festa, para alimentarem a todos que estiverem presentes. As doações em dinheiro são entregues ao pároco para que sejam utilizadas em benefício da Igreja da localidade promotora da festa.
Foto de Rodrigo Erse
No dia do Divino Espírito Santo, o final da Festa, é feito o carregamento do Mastro da Bandeira por vários homens e mulheres até em frente à Igreja, onde é hasteada. A Bandeira é pregada em um quadrado de madeira que por sua vez é colocado na ponteira de um Mastro. Esse arranjo possibilita que a bandeira seja movimentada pelo vento, em várias direções. No dia seguinte, a Bandeira estará apontando na direção onde deverá ocorrer no próximo ano. Depois do hasteamento da mesma, celebra-se o culto do Divino na Igreja, no caso onde presenciei em maio de 2012, Igreja Nossa Senhora do Seringueiro em Guajará Mirim.
O sorteio dos personagens da festa como: o Imperador e Imperatriz do Divino, Alferes da Bandeira, do Capitão do Mastro, dos Mordomos, das Engomadeiras, da Secretária da Imperatriz e da localidade da Festa, é feito no dia seguinte. Findo o sorteio, o povo canta,come, bebe, saúda os eleitos e dança. O Capitão do Mastro os Mordomos, as Engomadeiras e a Secretária da Imperatriz atuam apenas no dia do final da festa.
A Festa do Divino Espírito Santo, no Vale do Guaporé e Mamoré, sobrevive, apesar de todas as dificuldades e contratempos, numa mostra de fervor religioso e apego à mais caras tradições da região. A estrutura para o evento é grande e se torna dispendiosa, principalmente no que tange a quantidade de pessoas que atuam diretamente durante os percurso feito ao longo dos rios Guaporé e Mamoré. A grandiosidade depende sempre da região ou localidade que recebe o Divino. Em específico na cidade de Guajará-Mirim, envolve combustível para as embarcações que prestam apoio ao Barco do Divino durante os trajetos visitando as cidades ribeirinhas. O evento em Guajará-Mirim, segundo estimativa da Paróquia Nossa Senhora dos Seringueiros, envolve em torno de cinco mil pessoas, entre organizadores e fiéis. Cidadãos de Guajará que residem em outras cidades, são levados a retornar a região durante os festejos, movimentando o lugar, além de moradores de localidades vizinhas como: Iata, Vila Murtinho, Nova Mamoré, Abunã e Porto Velho.
 A tripulação do barco do Divino é formada pelos seguintes personagens: Remeiros  são promesseiros ou foram sorteados no ano anterior; impulsionam o barco com remadas cadenciadas. Usam lenços brancos amarrados na fronte. Foliões ou Alunos do Divino – cantores de 8 a 14 anos, usam lenços brancos em  volta da cabeça, amarrados embaixo do maxilar inferior. Mestre - encarregado de orientar os foliões e toca o instrumento violão. Caixeiro – tocador do tarol, cadencia as remadas dos remeiros. Artilheiro ou Ronqueiro – responsável pelo disparo das salvas de tiros que anunciam a chegada do Divino na localidade. Encarregado da Coroa – tem a missão de proteger a coroa e entregar ao Imperador de cada localidade onde ocorre festejos do Divino. Comandante Geral – É o piloto do Barco ou Batelão e zela pela disciplina a bordo. Alferes da Bandeira – Encarregado da Bandeira do Divino. Um Cozinheiro e um Copeiro para auxiliar na alimentação dos membros da tripulação durante o longo percurso nos rios Mamoré e Guaporé. 
Atualmente, a Irmandade do Divino admite aumentar o número dos remeiros para 14 ou 16, quando a embarcação usada permite, para que possam atender a grande procura por essa função, pelos promesseiros. Havendo muitos promesseiros para participarem da viagem no barco, eles são aceitos nas funções de 2° Caixeiro, 2° Copeiro e 2 ° Cozinheiro. Os encarregados do barco ou batelão, da Coroa e o Mestre dos Foliões, são escolhidos pelo Imperador da Festa. Os outros são sorteados ou aceitos por serem promesseiros.
Foto de Rodrigo Erse
Existem muitos símbolos e representações que fazem parte do mundo dos festejos da festa do Divino Espírito Santo, são símbolos que compõe essa cultura.  Um deles é a Bandeira do Divino, é de cor vermelha com a Pomba do Divino bordada de branco no centro.
É observado também a Coroa do Divino, que é de prata, coberta por fitas coloridas, doadas pelos promesseiros. Para os fiéis, as fitas curam doenças. Quem quiser possuir uma fita da Coroa, deve trocá-la por outra. Complementam essas representações o Cetro do Imperador, que é de prata coberto por fitas coloridas. São parte do ritual os Cânticos, que são cantos de chegada, de saída e o Hino do Divino, músicas relacionadas a religiosidade. Os componentes que fazem parte da tripulação do batelão ou embarcação do Divino possuem vestuário próprio, durante a viagem no barco veste-se normalmente. Apenas os Foliões amarram o lenço embaixo do queixo e os remeiros, na parte de trás da cabeça. Essa é a maneira de distinguir uns dos outros. No dia do Espírito Santo (Pentecostes), quando se dá o final dos festejos, os foliões vestem-se com roupa à moda dos coroinhas.
A Festa do Divino é organizada, por uma irmandade formada por pessoas solteiras ou casadas. Não sendo permitido o ingresso de concubinados ou casais que não são oficialmente casados de acordo com preceitos da Igreja Católica. Essa irmandade é composta de Irmãos de Corpo e irmãos de Roda. Os Irmão de Corpo são aqueles membros cuja a vida particular e conduta moral não sofrem restrição. São irmãos que podem vir a ser Imperador ou Imperatriz da Festa.
Alguns pontos curiosos foram também observados na congregação do evento estudado. As mulheres não podem fazer parte da tripulação do barco do Divino. Outra coisa também percebida é que ao folião não se oferecem alimentos frios para não prejudicarem a voz. Nenhuma embarcação que acompanha o Divino pode passar à sua frente, pois receberá castigo santo, assim relatado pelos membros do Divino. Outro fato também levantado, é que mulher divorciada ou como eles se referem como descasada, “amasiada” ou de vida incerta não pode carregar o Cetro.  
O Divino em Guajará-Mirim teve alguns períodos de paralisação, segundo os arquivos da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, no final década de 50, o evento teve um enfraquecimento, retornando a partir da iniciativa de uma senhora denominada Zuleide. No decorrer dos anos de 1965 , a senhora Zuleide quis implantar a Festa em Guajará-Mirim, por ter alcançado uma grande graça através do Divino Espírito santo. Em 1962 (ou 1963) – a senhora Zuleide e seu esposo Antônio Mercado trabalhavam como marreteiros, entre os rios Mamoré e Guaporé. Um certo dia, numa comunidade de moradores ribeirinhos, o casal atracou o barco, no porto do lugar. Subiram o barranco até as casas, a fim de oferecerem suas mercadorias. De repente, dona Zuleide teve o intuito de voltar ao barco. Para seu espanto ao se
aproximar viu o toldo, que era de palha, pegando fogo. Foi grande seu desespero, pois sua ilha de dois ou três meses, estava dentro do barco, dormindo. Ela tentou apagar o fogo. Não conseguindo, gritou pelo marido, que chegou correndo. Vendo que não conseguiam apagar, clamou pelo Senhor Divino Espírito Santo. Logo em seguida avistou uma vasilha grande no barco, e junto com seu esposo começaram a jogar água e puderam contornar a situação. Uma faísca do fogo atingiu a criança deixando nela o sinal da queimadura. Dona Zuleide prometeu festejar o dia de Pentecostes, cumprindo a promessa por dois anos, mas, por motivos justos, não pode continuar com os festejos. Assim deu-se início à festa ao Senhor Divino Espírito Santo, no bairro do Triângulo. Como não possuíam um lugar fixo para as reuniões, nem para celebrarem as missas, realizavam as celebrações nas casas das famílias.
Em 1972 foi entregue para funcionamento a comunidade Guajaramirense, a escola Capitão Godoy. A Missa começou a ser celebrada neste estabelecimento de ensino. Quando tinham a presença de um padre disponível, pois a carência era grande, tinham a Celebração Eucarística.
Em 1973 a Senhora Maria Angelina Gomes Serrath, vinda do Vale do Guaporé estabelecer-se em Guajará-Mirim, tomou conhecimento do movimento litúrgico muito carente, e algumas oportunidades havia grande participação de fiéis, mas, essa participação não era estável, havendo em alguns momentos esvaziamento das celebrações.


Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

sábado, 1 de junho de 2013

Amazônia: novos desafios e perspectivas para o século XXI

O novo século e o avanço do processo de globalização da economia encontram a região amazônica como alvo de todo tipo de interesses, tanto nacionais quanto estrangeiros.
Desde a chegada dos portugueses ao litoral brasileiro, um dos grandes desafios impostos ao colonizador era integrar um território tão vasto e diversificado. A cobiça sobre as nossas riquezas geraram inúmeras discussões, conflitos e tratados.
A Amazônia apresentou-se, desde início, como um espaço diferenciado, onde as políticas públicas deveriam ser específicas, não valendo aquelas que se aplicavam ao restante do território. Isso levou o colonizador europeu a adotar medidas específicas para melhor administrar as terras mais ao norte. Basta verificar nossa origem colonial, desde o Estado do Maranhão, passando pelo Grão-Pará, pelas Províncias do Pará e Amazonas no Período Imperial até o início do Período Republicano.
Após a independência e mesmo após a proclamação da República, durante décadas, o objetivo de vários governantes foi ocupar, colonizar, explorar e integrar aos domínios brasileiros essa vastidão, que genericamente denominados Amazônia.
Nos últimos anos, quando o aquecimento global, a devastação das florestas e a poluição do meio ambiente passaram a predominar como temas de mídia de todo mundo, os olhos da humanidade voltaram-se para Amazônia, como o discurso do último refugio, última reserva, última fronteira.
Conforme a Amazônia ia aos poucos sendo revelada ao Brasil e ao mundo, por meio de inúmeros inventários e levantamentos de seus recursos naturais, minerais e energéticos, nas décadas de 1980 e 1990 assistimos à entrada em operação de inúmeros projetos de impacto, no setor de mineração e eletricidade, como o projeto Trombetas, pela Companhia Vale do Rio Doce, para exploração da bauxita; da grande Carajás, para exploração do minério de ferro; da Albrás-Alunorte, em Vila do Conde, para produção de alumina e alumínio metálico; de Tucuruí, no Rio Tocantins, para cerca de 4 milhões de quilowats; e o das hidrelétricas de Balbina, no Rio Uatumã, e de Samuel, no Rio Jamari.
Esse programa, que contribui para a expansão demográfica e da fronteira agrícola, pecuária, mineral e industrial deu origem também às tensões sociais, conflitos de terras, disputas de posse e invasões de áreas indígenas.
A situação engendrou também, pelo atraso de uma política nacional de preservação, o quadro atual caracterizado pela atuação das madeireiras predatórias, poluição fluvial, garimpeiros clandestinos, falsos missionários, contrabando das riquezas da biodiversidade florestal e pelo narcotráfico favorecido pelos 5.993 km de fronteira de uma linha imaginária, com insignificante presença civil ou militar aberta a guerrilha, ao narcotráfico, ao contrabando de armas e a biopirataria.
A presença de inúmeras ONGs, muitas delas utilizando-se de verbas públicas para executar tarefas terceirizadas, em áreas que o governo federal abstém-se em atuar, é outro motivo de preocupação, tanto para as autoridades como para a população da região.
Por fim, em função de uma infra-estrutura de transportes deficitária, provocou exclusão social, em que cada vez mais os problemas e as necessidades do Centro-Sul do país tornaram-se dissonantes da realidade regional, o que urge um planejamento estratégico de longo prazo para esta importante parcela do território nacional.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

terça-feira, 21 de maio de 2013

Mário de Andrade, o Turista aprendiz em Porto Velho

Poucas pessoas sabem da vinda do celebre escritor modernista brasileiro a Rondônia. Mário de Andrade (São Paulo, 1893-1945), fotógrafo moderno, mas de reconhecimento tardio, que veio a Porto velho na década de 20 na busca de conhecer o Brasil do norte, e usar como inspiração para suas futuras obras, os elementos culturais amazônidas. Como esse tema é muito amplo, vou restringir-me à fotografia na primeira das duas viagens em que ele se denomina Turista Aprendiz. As expedições ocorrem a partir de 1927 quando Mário, aos 34 anos, por sua obra de poeta, ficcionista, teórico do Modernismo, cronista e crítico, já goza de certa projeção nacional. A escolha do ano de 1927 abre exceção a duas fotos de 1928-1929, dada a importância delas para esta reflexão. Alguns pesquisadores chegam a dizer, que Mário teria reescrito seu famoso personagem Macunaíma, após conhecer a vida do caboclo da Amazônia nas regiões de Rondônia e Mato Grosso.
Mário de Andrade no Rio Jaci Paraná
No arquivo do escritor, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, na série Fotografias, entre as subséries ali organizadas, sobressai aquela que o caracteriza como um fotógrafo moderno, manejando uma Kodak de caixão, pelo que se observa no auto-retrato enquanto sombra, datado do ano-novo de 1928.
Mario de Andrade ao lado do Marco Divisório AM-MT em Sto. Antônio
A bastante tempo interessa a Mário de Andrade conhecer seu país. Com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o poeta francês Blaise Cendrars, Olívia Guedes Penteado, grande dama da aristocracia do café e mecenas dos modernistas, e outros amigos, participa da "viagem da descoberta do Brasil" , assim nomeada pelo crítico Alexandre Eulálio. Fundamental nos rumos do nosso nacionalismo modernista, a viagem tem, entre outros importantes resultados, o Noturno de Belo Horizonte, longo poema de Mário no qual as visões do eu lírico transfiguram caminhos do viajante que deixa, também no desenho e na crônica, flagrantes de seu percurso.
Obelisco do Centenário e Edifício Monte Líbano e ao lado Mercado Municipal
Mário de Andrade vai primeiramente ao Norte. As duas viagens que realiza como Turista Aprendiz, em 1927 e 1928-1929, são as mais demoradas e extensas de uma vida de poucas viagens. Devotadas a uma espécie de impregnação do Brasil, ambas lhe rendem diários textuais e imagéticos, estes últimos unindo legendas às fotografias. Na primeira, entre maio e princípio de agosto de 1927, ao lado de D. Olívia Penteado, na verdade, a responsável pela idéia, e de duas mocinhas, a sobrinha dela, Margarida Guedes Nogueira – Mag – e a filha da pintora Tarsila do Amaral, Dulce do Amaral Pinto – Dolur –, retroceder visita os estados do Amazonas e do Pará, chega a Porto Velho Rondônia, a Iquitos, no Peru, e à fronteira com a Bolívia. Vai e volta de vapor, com escalas nos portos principais; a bordo de embarcações típicas da região, navega os grandes rios, igapós e igarapés; toma um trem da Madeira-Mamoré, visita Jaci Paraná, Abunã, Vila Murtinho e Guajará Mirim.
Barranco do Rio Madeira
Ao regressar, o escritor e fotógrafo, ainda em 1927, lança-se em mais dois diários: o imagético-textual e o textual propriamente dito. O primeiro compõe-se de mais de 500 imagens reveladas em preto-e-branco e viragens, seguidas das respectivas legendas no verso, a lápis. Estas, em uma primeira etapa da escritura, geralmente transpõem apenas as informações colhidas in loco, mas, em uma segunda – materializada no traço mais leve –, glosam as representações e o exercício fotográfico, ao construir um texto fragmentário, multifacetado e híbrido, como todos os diários. Nele viceja tanto o registro que se propõe fidedigno como a criação literária que exerce o humor, o lirismo e a metalinguagem.
A baronesa Olívia Penteado ao lado de Major Amarantes e Dulce do Amaral Pinto, filha de Tarsília do Amaral 
Diário moderno, junto com o primeiro, aquele das sínteses esboçadas em papéis esparsos, embasa o trabalho do escritor que, em sua escrivaninha paulistana, no mesmo ano da viagem, expande um novo texto, no qual recorre a diversos tipos de relato e dialoga com o diário da viagem do naturalista Martius pela Amazônia. Tem intenção de publicá-lo como O Turista Aprendiz: (Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega), paródia ao título do livro do avô, Leite Moraes, de 1883, Apontamentos de viagem de São Paulo á capital de Goiás, desta ao Pará, pelos rios Araguaia e Tocantins, e do Pará á Corte. Considerações administrativas e políticas. Dessa versão de 1927, restaram parcelas aproveitadas na versão final em datiloscrito, precedida do prefácio de 30 de dezembro de 1943. 
Ruínas da antiga Catedral em 1927 onde hoje esta o Palácio do Governo do Estado de RO 
Na região de Rondônia, Mário viveu o cotidiano do homem da floresta, perceptível em algumas de suas fotos. Sua criatividade é representada com engenho e arte, pois ele propõe a função documental da fotografia ao se voltar para aspectos da geografia física da região, para o homem e a cultura material. Deste modo, a paisagem – a terra, os rios, a vegetação –, a população de brancos, mestiços e indígenas, homens, mulheres, curumins, os meios de transporte, trabalho, usos e costumes são captados pelas lentes de sua câmera.
Centro comercial de Abunã. Obelisco do Centenário - 1927
O legado histórico para Rondônia, foi deixado através de fotos não conhecidas, como pro exemplo das ruínas da antiga Catedral em 1928, situada anteriormente onde é atualmente o Palácio do Governo de Rondônia. Além de fotografias tiradas ao longo do percurso da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Fotos como em Jaci Paraná, Santo Antônio no Marco Divisório, em Abunã no Obelisco Centenário e em Vila Murtinho.
Pequena procissão em alusão a  padroeira de Porto Velho Maria Auxiliadora  
Outras fotos reveladoras, são do Edifício Monte Líbano e Obelisco Centenário no centro de Porto Velho, além de uma foto charmosa de uma pequena procissão de Nossa Senhora Auxiliadora em frente ao Colégio Barão dos Solimões.
Galpões da Estrada de Ferro em Abunã - 1927
Poucas pessoas eram conhecedoras da visita a Mario de Andrade a Porto Velho, e na tal, ele deixa claro em seu diário, que apreciou bastante a estada por aqui. Muitas pessoas da nossa pacata cidade correram para o pátio da ferrovia, quando ficaram sabendo que o famoso escritor modernista se encontrava em um dos vagões,... ”o que eu vim fazer aqui!...Qual a razão de todos esses mortos internacionais que renascem na bulha da locomotiva e vêm com seus olhinhos de fraca me espiar pelas janelinhas do vagão ?...” Mario de Andrade, O turista aprendiz.
Casa de um seringueiro no Rio Madeira - 1927
Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Candelária! A luz no fim do túnel

Médicos e enfermeiras no Hospital da Candelária em Porto Velho
Que a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré foi uma epopéia na Amazônia, todo mundo já sabe. Mas poucos se atentam aos detalhes que fizeram diferença para que a construção da famosa “Ferrovia do Diabo” pudesse finalmente ser concluída, com o propósito de assim escoar a produção de borracha e quinino nos vales dos rios Guaporé, Madeira, Beni e Mamoré.
No período em que Percival Farquhar, empresário norte-americano se envolveu em tal empreitada, foi construído uma das melhores estruturas hospitalares da época no Brasil, com o intuito de minimizar o impacto que as doenças do mundo amazônico provocavam constantemente na vida dos trabalhadores da ferrovia.

Farmácia do Hospital
Pode-se obter uma idéia da soma do serviço feito no Hospital da Candelária, do fato de terem sido admitidas 30.430 pessoas no hospital, durante os quatros anos: de 1° de janeiro de 1908, até 31 de dezembro de 1911. Tendo seis grandes enfermarias (250 camas) e uma sala cirúrgica, com as mais modernas instalações, fornecendo o início local para cirurgia, dentro de um raio de muitas centenas de quilômetros. Existiam também laboratórios para exame de sangue e espécies patológicas. Durante estes quatro anos, a nenhuma pessoa, homem, mulher ou criança, de qualquer origem atacadas de qualquer moléstia, foi recusada a entrada no hospital. Muitas centenas de não empregados receberam do mesmo hospital tratamento médico e cirúrgico e em nenhum caso foi cobrado qualquer pagamento pelos serviços. Era mantida também uma farmácia, que distribuía livremente todos os remédios necessários para os doentes.


As doenças Amazônicas e os Trabalhadores

Nesse momento da história, revela-se um dos aspectos mais tristes ,embora práticos, da construção da ferrovia, pois a empresa concluiu que, se mantivesse o mesmo sistema de trabalho empregado em outras obras, funcionários fixos, iria falir completamente como todas as outras empreitas, pois a grande maioria dos homens que chegavam cheios de saúde à região, eram, após 3 ou 4 meses de trabalho, pessoas praticamente incapacitadas para o trabalho, devido às doenças que assolavam a área.

Assim, foi promovido um verdadeiro "rodízio" humano naquela região, onde mensalmente levas e mais levas de trabalhadores sãos e em pleno vigor físico eram trazidos para substituir os mortos, doentes e incapacitados, que eram então demitidos. Resolvidos a tocar as obras ininterruptamente através desse expediente, a Companhia estabeleceu representantes em diversos países da Europa, África e América Central, que ofereciam grandes perspectivas de lucros para aqueles que se dispusesse a cumprir um contrato de trabalho "em uma região paradisíaca na floresta tropical Brasileira", findo o qual o trabalhador seria livre para tornar-se agricultor ou participar também da cornucópia de lucros e fortunas que prometia ser a região cortada pela Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Parte da estrutura do Hospital da Candelária
Durante os 6 anos que durou a construção dessa ferrovia, cerca de 22.000 homens dos mais diversos países e regiões do mundo acreditaram nesse sonho e entregaram suas energias para contribuir para a construção dessa ferrovia. Quantos morreram? Quantos ficaram inutilizados e terminaram seus dias mendigando nas cidades do vale Amazônico? Quantos prosperaram? são perguntas sem respostas, como muitas que até cercam a construção dessa estrada de ferro.
Na média, cerca de 400 a 500 funcionários novos recrutados pela Companhia no mundo inteiro chegavam mensalmente aos canteiros de obras, e imediatamente começavam a substituir os doentes e incapacitados, pois à medida em que as turmas avançavam no levantamento da linha, derrubada das matas e construção da via permanente, iam afastando-se cada vez mais da Região de Santo Antônio, onde pelo menos já havia um mínimo de estrutura sanitária e embrenhando-se no coração da selva amazônica, enfrentando todo o tipo de doenças e enfermidades nessa região desconhecida, inexplorada e reconhecidamente uma das mais insalubres do planeta, devido aos milhares de pântanos e charcos que servem de viveiro para milhões de mosquitos e insetos transmissores das mais diversas moléstias.
E assim, o pessoal da ferrovia pagava seu pesado tributo à região, onde a malária grassava entre os trabalhadores, os quais muitas vezes, ao cair doentes em locais mais distantes do ponto inicial da ferrovia, acabavam morrendo à míngua sem quaisquer cuidados. Mesmo os médicos sofriam de doenças e nessas horas, eram os engenheiros e pessoal mais graduado escalados para fazer esse atendimento. Foi a construção dessa ferrovia recheada de episódios de heroísmo e dedicação de homens que, reunidos nos mais diversos locais do mundo deram, sob o comando de um punhado de americanos decididos e corajosos, mostras de um valor e solidariedade humanos impares, a ponto de muitos médicos e engenheiros acabaram encontrando a morte nesse trabalho de atender aos doentes.
E o que diziam os depoimentos na época? O de sempre: "Chove diariamente, os mosquitos perturbam dia e noite, não existe um único lugar seco nessa região, o chão é um barro só, o impaludismo e a malária grassam nos acampamentos e os homens morrem muito mais rapidamente do que antes....." Um relatório de um dos médicos, o Dr. Lovelace, diz que 95% da população de Porto Velho estava atacada de malária e que, de acordo com seus estudos, algumas observações impressionantes haviam sido feitas, como por exemplo o fato de que com certeza, após 30 dias de estada em Porto Velho, uma pessoa já teria contraído a malária. Nessa época, a média de permanência de um funcionário na região era por volta de 3 meses e se era verdade que mensalmente chegavam vapores carregados de novos trabalhadores ansiosos por arriscarem a sorte na região, também é verdade que esses mesmos vapores partiam lotados com as mesmas pessoas que haviam chegado 3, 4 meses antes, apavorados com a pestilência que imperava na região. Quantas dessas pessoas doentes foram morrer na viagem ou em seus países de origem? Jamais saberemos.
Entretanto, os miseráveis que conseguiam chegar a Manaus ou Belém, passando a esmolar nessas cidades, foram objeto de muitas reportagens criticando essa situação por parte da imprensa, com repercussão mundial, a ponto de países como a Alemanha, por exemplo, proibirem a viagem de seus cidadãos com destino a essa empreita.
E assim, entramos pelo ano de 1909, onde em alguns meses chegaram a haver mais de 2.800 trabalhadores na ferrovia, das nacionalidades mais diversas que se possa imaginar, como chineses, índios Norte-Americanos, Húngaros, Belgas, Irlandeses, Russos, Árabes e muitos outros, fazendo-nos perceber que o trabalho de recrutamento de sangue novo dava-se em nível mundial. Realmente, como disse o Ministro da Viação e Obras Públicas em trecho de sua apresentação ao Presidente da República, em 1910: "Raras vezes terá sido construída uma estrada nas condições desta...."
Aos poucos , o engenho e a determinação dos Norte-Americanos foi transformando Porto Velho em uma cidade de razoável porte, sendo providenciados sistemas de saneamento e tratamento de água, sistemas de telefonia e até iluminação pública com eletricidade. Instalações tais como padarias, fábricas de gelo, cinema, fábricas de biscoito, matadouro e tipografia.
O Hospital da Candelária sem sombra de dúvida veio para resolver um problema grave com relação à saúde dos trabalhadores que, antes morriam como moscas, de febre amarela, malária, beri-beri e pneumonia. A luz do fim do túnel, a Candelária, era composta por 15 edificações na sua estrutura, e era composta por médicos e pesquisadores americanos. Até Oswaldo Cruz, grande cientista, médico e sanitarista; não poupou elogios em seus relatórios, sobre a infra-estrutura do Hospital da Candelária, que se tornou uma referencia no Brasil com relação a doenças tropicais, que passou a dar um ar de tranqüilidade para aqueles que viviam a aventura de desbravar a Amazônia.



Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098